Resenha crítica do livro “Como se faz uma tese”

 Escrito por Umberto Eco, o livro “Como se faz uma tese” tenta elucidar, ora descontraída e irônica, ora formal e tecnicamente, mas sempre de forma séria, os caminhos e desafios enfrentados no momento da construção de uma tese - aqui entendida como um trabalho obrigatório para a formação em cursos, seja na área da licenciatura, seja em um doutoramento. Portanto, diferentemente do uso acadêmico utilizado no Brasil, em que a tese designa primordialmente o trabalho de conclusão do doutorado (e, assim, um trabalho original e inovador em termos de conhecimento científico), a tese abordada no livro se divide em duas categorias não hierarquizadas: a tese de compilação (reunião de trabalhos e ideias relevantes) e a tese de investigação (em que há uma maior reflexão, um maior debruçamento sobre o objeto de estudo).

Tendo inicialmente como público-alvo os estudantes universitários italianos, a obra contextualiza-se em um momento em que o ensino superior italiano estava sendo expandido e o ambiente, que outrora era frequentado quase que exclusivamente por pessoas advindas de um ensino básico excelente e sem preocupações financeiras, é agora vivenciado por estudantes de diversas classes, muitos dos quais sem tempo, nem preparação e com sérias dificuldades econômicas. Assim, a rotina da universidade se modificou drasticamente, trazendo dificuldades logísticas e acadêmicas antes não enfrentadas. Ora, há que se notar um paralelo ululante entre a situação descrita pelo autor nas universidades italianas algumas décadas atrás e o fenômeno da expansão universitária brasileira dos últimos anos. Os problemas estruturais, logísticos e acadêmicos que se originam dessa democratização da educação (louvável e necessária, mas nem sempre bem planejada) são semelhantes: muitos estudantes despreparados, sobrecarregados com rotinas de trabalho e estudo exaustivas, atolados em estruturas burocráticas paralisantes e desestimulantes, falta de incentivo e de recursos materiais e uma desmoralização da vida acadêmica. Foi justamente aos estudantes dessa nova conjectura - que encontram entraves, seja na questão financeira ou temporal, mas que buscam fazer um trabalho sério e dedicado - que o escritor destinou seu texto e a eles que este funciona muito bem como um estimulante e como uma orientação guiada.

Desde o início, Umberto Eco já alerta para o caráter informal do seu livro. São espécies de conselhos, orientações, e não uma “discussão teórico-crítica sobre o estudo”. Contudo, vale notar que, em momento algum, apesar do tom bem-humorado de muitas das páginas, o autor deixa se levar por inspirações fáceis, frases de efeito ou conselhos de auto-ajuda inócuos. Absolutamente: constrói de maneira gradativa e lúcida o seu livro. Neste, a seguinte ordem de explanação do conteúdo é dada pelo autor: inicia explicando o que vem a ser uma tese e sua finalidade; após, faz apontamentos sobre a escolha temática; segue falando sobre a investigação bibliográfica, o planejamento e a formação de ferramentas de estudos (como fichas e apontamentos); e, por fim, termina abordando os pontos gerais da redação em seus aspectos técnicos e estruturais.   

O humor e a descontração em muitas das passagens possui um efeito notoriamente benéfico à leitura, uma vez que torna menos massante uma matéria que, por seu conteúdo extremamente técnico e formalista, encontra obstáculos na monotonia e na abordagem tediosa. A ironia utilizada pelo autor em algumas frases absurdas e metafóricas (como a sugestão sarcástica que dá a alunos desinteressados e apressados de encomendarem uma tese) torna a leitura mais dinâmica e menos exaustiva; parece que a verve de ficcionista de Umberto Eco se une ao conhecimento técnico para transformar o texto em um misto coerente e eficaz de informações e conselhos informais. Talvez uma das maiores qualidades do livro seja a despretensão presente na maioria das páginas e o fato de não querer impor condutas e normas inflexíveis. 

Na primeira parte do livro, Umberto Eco já aponta algumas regras imprescindíveis na seleção do tema; as regras exprimem, basicamente, que a tese deve ser agradável ao pesquisador e que o método de alcançar o conhecimento (bibliografia e planejamento) deve ser razoável e alcançável. O autor, aqui, injeta uma carga subjetiva na escolha. Esse aspecto íntimo é, não raramente, rejeitado e, mesmo, repudiado por alguns academicistas, para os quais a universidade não passa de um laboratório frio, rígido e opressor. É facilmente perceptível que um estudo interessado e com motivações pessoais - e que, obviamente, não se afasta do método científico e do rigor intelectual - tem chances maiores de se desenvolver com desenvoltura; uma pesquisa interessada é mais estimulante e mais instigante e, consequentemente, mais aprofundada.

Ainda na primeira parte do livro, o autor contrapõe alguns modelos de tese, a saber: monográfica (mais específica e preferível) ou panorâmica (por conter informações sobre muitos aspectos, acaba por ser demasiado superficial); histórica ou teórica (em relação a estas duas, a tese pode se mover de uma para outra a depender do andamento dado ao estudo); de temas antigos ou contemporâneos (ambos apresentam suas dificuldades e facilidades; os contemporâneos, algumas vezes, carecem de bibliografia a respeito, ao passo que os antigos possuem bibliografia extensa até demais, podendo tornar a leitura fatigante). O autor foi perspicaz a evitar fazer um juízo de valor definitivo em relação a essas escolhas e, com exceção da certeira preferência pela tese monográfica, não impôs o caminho do que seria ideal para uma tese impecável.

O tempo a ser utilizado para a elaboração da tese será diretamente proporcional à abrangência e à profundidade almejada, bem como à quantidade de material bibliográfico a ser analisado. Tendo sido categórico ao estipular o prazo de seis meses a três anos, o autor pode ter parecido um pouco precipitado em sua arbitrariedade. Contudo, analisando o objetivo da obra e o público a quem se direciona (estudantes com tempo disponível e dispostos a um trabalho sério), a média estipulada é bem razoável, embora não possa ser definida de maneira irrevogável. 

A necessidade de língua estrangeiras é evidente no ensino superior brasileiro, pelo menos em universidades públicas. Ainda que os estudantes não entrem com a fluência de que se espera, ou de que necessitarão nos estudos, uma noção básica é exigida desde o momento do ingresso na pós-graduação. Eco explana bem os motivos da importância de se saber uma ou mais línguas estrangeiras fazendo algumas observações: não se pode estudar um autor sem o ler no original, ou fazer uma tese cujos principais estudos estão em uma língua que se desconhece; acrescenta, ainda, que a abordagem em outros idiomas pode nos fornecer uma visão alargadora totalmente diferente das que temos contato com nossa língua nativa. Assim, é um valiosíssimo instrumento o saber outro(s) idioma(s) ou estar disposto e dedicado a aprendê-lo(s). Caso não seja possível, a escolha do tema deve ser bem delimitada e contida, de forma que a bibliografia no idioma escolhido baste à pesquisa. 

Umberto Eco alerta para a atenção que o estudante deve ter para não ser manipulado pelo orientador. Infelizmente, é uma prática não dificilmente identificável orientadores que abusam de seus orientandos, colocando-os para fazer pesquisas e experimentos que interessarão sobretudo a si mesmos. Dessa forma, o estudante, além de estar despendendo tempo e energia que poderiam ser utilizados na investigação e na colheita de dados mais úteis à sua tese, sofre uma espécie de violência intelectual ao ter os dados e informações colhidos utilizados desonestamente em outros estudos.

O objeto de uma tese pode tanto ser um livro ou um fenômeno real. As fontes a serem utilizadas estão diretamente relacionadas com a forma do objeto. Ao tratar com rigor (chegando a desprezar) o uso de traduções (a qual compara com uma “prótese”), Umberto Eco subestima toda a categoria, estigmatizando-as e elaborando um juízo de valor preconceituoso. É compreensível e facilmente notável que muitos dos textos traduzidos possuem falhas grotescas e deturpações indesculpáveis. Contudo, muitas das traduções incorporadas ao cotidiano acadêmico das instituições mais renomadas podem ser ótimas fontes de informação e conhecimento. Muitas vezes, privarmo-nos de utilizar a citação de certos autores apenas porque estão traduzidos é mais prejudicial do que se o citarmos em uma tradução que, apesar de sua natureza inexoravelmente imperfeita, é confiável fonte de conhecimento. 

Separando as fontes em “de primeira mão” e “de segunda mão”, Eco já define alguns valores que dará à validade das fontes. “De primeira mão” é uma edição original ou crítica da obra estudada; as fontes “de segunda mão” podem assumir diferentes configurações, dentre as quais a citação de um autor em um local diverso ao livro/veículo originalmente utilizado para publicá-lo e divulgá-lo (exemplo: jornal que publica discursos proferidos em um parlamento não tem a mesma validade que o original guardado nos arquivos do parlamento). Apesar de abrir apenas excepcionais exceções à utilização de uma citação da citação (o famoso apud), o rigor de Umberto Eco é equilibrado quando ele pondera que, caso seja imprescindível seu uso, que o seja de maneira honesta: não se deve fazer a citação como se ela tivesse sido lida no original. Conselho sensato e compromissado com a verdade, embora ainda transpareça aqui uma rigidez que pode assustar muitos dos estudantes preguiçosos.

Em determinado momento, o autor dá conselhos de como utilizar a biblioteca e extrair dessa experiência investigativa o máximo de utilidade e conteúdo. Ainda que tenha havido o desuso da prática, por muitos a considerarem obsoleta, a maioria dos conselhos (como o uso da intuição, a pesquisa por títulos que fogem do óbvio e a consequente desconfiança necessária que a acompanha) em sua essência podem ser transpostos e personalizados para a utilização da internet e do google. A modernização permitiu a utilização de ferramentas tecnológicas que, se de um lado atolam o estudante com informações inúteis, aumentam a velocidade, a abrangência e a quantidade de conteúdo útil das pesquisas.

“Começar pelo fim” é o conselho paradoxal dado por Umberto Eco para planejar a elaboração da tese. O fim a que se refere é o índice - que contém todos os capítulos e assuntos tratados. Evidentemente, eventuais alterações (acréscimos ou supressões) ocorrerão à medida que a pesquisa avança, mas, de qualquer maneira, tendo como mastro orientador o índice elaborado, a pesquisa far-se-á com mais naturalidade e dinamicidade. É um conselho ideal, mas potencialmente prejudicial aos ansiosos, pois a tentativa de se pensar em tudo que se abordará pode causar angústia e apreensão. No entanto, trata-se de um treinamento válido e agregador, pois a tese é justamente um exercício de paciência e de investigação que tem na pressa, no desespero e no desleixo grandes inimigas. 

Assim, deve-se começar traçando um título (que efetivamente representa o assunto tratado e que muitas vezes assumirá a forma de subtítulo na redação definitiva), introdução (que também poderá ser eventualmente reescrita) e índice (tido aqui como um índice provisório). Todos esses elementos servirão como direcionador dos rumos que se deseja tomar, como delineador do tema e como norteador das ideias. Logo após, traçado um plano das próximas etapas a serem seguidas (investigação bibliográfica, estrutura formal, leitura, análises comparativas, desenvolvimento do tema, conclusões, dentre outras), começa-se a redação e as etapas subsequentes (revisão, encadernação, etc). A importância dada por Eco à organização, ao planejamento, à formação de uma estratégia é primorosa, pois ela pode, não apenas poupar esforços desnecessários e, consequentemente, poupar tempo, mas também dar maior clareza à exposição das ideias e dar à tese um ritmo e uma explanação mais eficaz e segura.

A redação da tese deve começar por termos claramente definido a quem a ela irá se dirigir, pois isto irá interferir diretamente na maneira como ela irá se desenvolver (lenta ou rapidamente), bem como os termos que se utilizará (mais técnicos ou não) e a progressão da abordagem do tema (mais ou menos introdutório). 

A seguir, o autor dá dicas e exemplos de como se deve falar (a maneira como se deve escrever a tese). Os conselhos práticos visam, sobretudo, alcançar a clareza na exposição das ideias. São algumas das dicas: evitar períodos longos e o excesso de pronomes (não tendo receio de repetir o sujeito); utilizar os parágrafos sempre que for conveniente para a limpeza do texto; definir um termo importante na primeira vez que o citar. São apontamentos perspicazes, pois a tendência de muitos dos estudantes de ciências humanas é para o floreamento, o rebuscamento, enquanto que a investigação científica deve primar, antes da beleza do texto (ou do que se considera “belo”), pela sua clareza e verdade - não estamos a falar de poesia ou de ficção, mas de um instrumento científico.

Após, o autor expõe dez regras para se fazer citação, relativas ao seu tamanho, à conveniência, à veracidade e à fidelidade (compromisso intelectual com a verdade) e à forma. As regras evitam mal entendidos e resguardam a validade das citação, enriquecendo o texto e evitando que o estudante entre em situações constrangedoras e até ilícitas (como o plágio). 

O restante do livro é dedicado a questões de ordem técnica, como, por exemplo, a maneira de se fazer citações bibliográficas (tema para o qual dedica inúmeras páginas e esmiúça com delicadeza) ou como elaborar fichas. Apesar de massante e demasiado normativo, o discurso continua com sua fluidez típica. A utilidade das informações e a seleção cuidadosa de Eco torna a leitura menos torturante, uma vez que dá a impressão de acréscimo, de crescimento, de aprimoramento.

É evidente a importância que o livro resenhado pode ter para os estudantes de pós-graduação da área de ciências humanas, caso seja utilizado de maneira sensata e racional. A abordagem do conteúdo é direta e os conselhos são sem rodeios. A tese que o autor aborda, assim como a dissertação do mestrando, possui aspectos que a experiência calejada de um intelectual do porte de Eco esclarece em sentenças claras, diretas e úteis. É um livro bem escrito no qual as facetas de ficcionista e acadêmico se unem sem que o autor se perca em divagações rebuscadas e desnecessárias. Leitura válida, prazerosa em sua maior parte, exemplificativa (que é uma ferramenta didática das mais eficazes), bem organizada e coerente.


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